Hoje deparo-me que está tudo do avesso: o café quente esfriou; o bom dia foi trocado pelo levantar de sobrancelha; os ténis deram lugar às botas de biqueira de aço; o jornal das notícias fresquinhas já só nos enlouquece com tumultuosos galhardetes; os padrões floreados estão revestidos de traços sombrios; o saboroso waffle vem acompanhado pelo sabor agridoce da neblina…

Tudo do avesso! Ora não fossem 06h30 da manhã!

06h30 de uma segunda-feira, o desejo do típico nortenho depois de um fim de semana de copos, tendo sido banhado a raios de sol, em posição frango do churrasco. Aquele sentimento agridoce de felicidade por termos o ganha pão mas a revolta pelo maldito equipamento ter despertado.

Num bocejar ainda sonolento, duas espreguiçadelas e é hora de dizer ao mundo com quantos paus se fazem uma canoa (na verdade, nem eu sei bem como foi criada essa história, mas que nos venderam bem o peixe, venderam!).

Dizem os antigos que “tuga que é tuga reclama de tudo que madruga”. Engraçado como a segunda-feira foi sempre encarada como um ser promíscuo, cheio de vaidade. Um pouco mal encarada, sucede ao dia que não se bate com nada: ora há a vontade de estar o dia todo de pijama refastelado no sofá, ora dá os suores das corridas matinais à beira rio. Bem… Não ousemos falar do sábado! Esse então…Meus amigos… Sempre em vinha d’alho! Haja fígado que aguente!

 

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Vista aos quadrados

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Costumava sentar-se no cadeirão pelas 19h… Hoje eram 18h e o trato era diferente.

Sentou o esqueleto no deslumbre do maciço de 4 tábuas enjauladas, agitou a camisa branca e “deu um jeito” nos fios loiros que pairavam ombros abaixo. Abraçou o vazio: uma garrafa de vinho tinto nunca antes avistada, um copo de traço elegante e levemos o primeiro gole a deslizar pelos lábios tenros da juventude.

Nunca apreciara vinho e a verdade é que este se fazia acompanhar por um travo um tanto ao quanto amargo. Uma pinga do manjar dos deuses escorregava… Deslizou lábios abaixo, ousando visitar o decote mais submisso outrora visto.

Tinha os olhos rasgados, a mente alvoraçada e a ânsia da felicidade. Pele clara, visão futurista e olhar posto janela fora.

Lá fora respira-se vida: os mais pequenos correm à chuva, dançam destemidamente, riem como se não houvesse amanhã; as gaivotas continuam o seu bailado, esvoaçando por caminhos estreitos, indo atrás da presa mais débil; os velhos, no auge da sua reforma, vivem juventude plena – rostos atraiçoados pelo tempo, marcas de guerra vincadas – de mãos dadas com a vida, deixam-se ser beijados pelos pingos da chuva.

O homem do eléctrico já não é mais o homem do eléctrico. Calçada fora, passo ante passo, reza a lenda que abraçou um “novo projecto”, ora esse não fosse o termo mais repenicado para dizer que foi despedido. Hoje bate portas e entrega as notícias à vizinhança, “Notícias fresquinhas, acabadas de sair da fornalha“, diz ele alegremente.

Mais uma golpada no castiçal da pinga e um raio de sol dava o ar da sua graça!

Estava descalça. Dizia que gostava de sentir a liberdade nos pés. Era amante de literatura e volta e meia atropelava as letras semânticas pelas claves de sol metálicas. Esqueçam lá a sintaxe!

No paradoxo da vida, continua levando a maré agitada.

 

 

 

 

Corações ao alto, isto é um assalto!

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Viva o dia da lamechice!

O dia do mais que tudo, aquele que outrora não foi nada; o dia de enfardar com classe, não esquecendo o guardanapo para limpar o canto da boca subtilmente; o dia de andar encima do salto perfazendo sempre uma linha recta imaginária; o dia que o coração sai pela boca e as borboletas viram saco de boxe.

A arte de estar apaixonado!

Saiu à rua com o seu melhor vestido: um verde alface florescido, de cetim, camuflado apenas para ocasiões especiais, dizia ela (há quanto tempo não vestia aquilo, mesmo?); meia de vidro onde até o mais cego via o decalque dos tornozelos torneados; sapato alto, como se levasse a Torre Eifel nos pés – hoje a noite é dela!

Ele também não fazia por menos! No auge dos seus “intas” (e tal), passeia o esqueleto dentro de uma camisa branca, acompanhada pela célebre calça de sarja. Engane-se quem pensa que se trata daquelas modernices do slim fit! Macho é macho e não se deixa levar numa utopia qualquer. Puxa o lustro aos cabelos pretos, duas “bufadelas” de perfume e lá vai porta fora.

Sabem aquela sensação do brilho nos olhos?

Combinaram encontrar-se no restaurante XPTO, da rua mais formosa do Porto. “De olho” no rio Douro, degustam o prazer de estarem apaixonados: sem relógios a demarcarem o compasso do tempo; sem mas e porquês; sem preocupações e lamentações…

Seria abuso dizer que o jantar era marisco?

Um copo de vinho e tudo é dito num olhar. Tudo menos que ganhamos o Nobel da Paz pelos restantes 364 dias em que não celebramos aquilo que temos.

 

 

-Vamos começar de novo?

-Por onde?

-Por dentro!

Saber a-mar

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– Consegues sentir?

– É salgada! E molha! Está fria!

– Vou-te contar um segredo! É fria mas vai aquecer a tua alma e repor os níveis de oxigénio, tantas quantas as vezes forem necessárias…

–*–

Uns correm, outros dançam, outros beijam-se e há aqueles que simplesmente estão… Estão sozinhos, caminham na incerteza e conjugam todos os receios como se fossem os ingredientes necessários para cozinharem o pudim que a avó fazia todos os dias de Páscoa.

A brisa traz um sabor salgado, envolve-se por entre os fios de cabelo escuros e desliza nos rostos mais pálidos; uma força avassaladora, capaz de mover o peso mais pesado (ora não se tratasse de uma redundância!).

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As gaivotas continuam o seu bailado, vão dançando a valsa e fitando qual o pitéu mais tenro para adoçar o bico… Olhar matreiro, estrutura rebuscada, bico aguçado. Carácter destemido, ousam dissipar do núcleo em busca do seu objectivo: mais uma presa (não desvies o teu foco, luta pelo que ambicionas, sê o teu guerreiro!).

As gargalhadas dos heróis em ponto pequeno que erguem os castelos de areia mais belos; os raios de sol que penetram e transformam-nos em camarões cheios de estilo; as toalhas efeito naperon do século XXI; os factores 50 que dão lugar ao óleo Fula mais requisitado para puxar lustro ao bronzeado…

PS: não esqueçamos o idioma mais propagado: avec lingue – aquele que todo o português ousa falar, mesmo estando no seio do seu país.

As caixas azuis que transportam pela manhã, repletas de manjares dos deuses e a célebre mini; as raquetes para os mais destemidos e o baralho de cartas para os mais audazes; a coluna que passa o som dos anos 80 e faz abanar esqueletos até não mais poder! Sabem do que falamos? Sentem a vibe?

Mas…(porque há sempre um mas)…

…o que gosto mais….

É quando posso ter tudo num só momento!

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Onde o sol se entrelaça na onda mais furiosa, com a brisa mais gélida, num anoitecer cintilante.

–*–

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Pôr-do-sol

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Vestia preto e ia de braço dado com a simplicidade. Os olhos sorriam e a voz era leve: tão leve como uma pluma que de entre suaves rodopios vento fora, dançava ao sabor da geada. Cabelos ruivos e encaracolados, contam que outrora serviam de baloiço para as tranças mais genuínas.

Olhar vazio, sorriso tenro e inconstante, expressões de afecto camufladas pelos Ray ban escuros. Sotaque carregado, doces palavras que traziam o rasgo do samba no pé. Garrafa de vinho na mão, tinto, talvez! Algo que aqueça a alma, neste gélido dia, por favor!

Sentou-se no jardim…

Rodeada de gente que enaltecia egos, rodopiava sem parar, latidos vários… e assobios? Esses então confundiam-se com as gargalhadas das crianças que outrora corriam sem parar. A vista era magnífica: Gaia ou Porto? (eis a questão).

A brisa afagava os rostos mais quentes e os corações mais frios. Ora se no Porto és amado, em Gaia és amante: amado pelas paisagens enriquecedoras, amante do trago amargo e rosáceo que invade a saliva mais sóbria!

Contam os mais sábios que de entre uns goles puros saem algumas verdades, jamais identificadas noutra estância. Uma eterna apaixonada. Amante das borboletas na barriga, aquele bichinho saltitante que ousa aparecer mesmo não sendo convidado.

Vendo o pôr-do-sol, acolhendo diversos idiomas, observando novos vôos e rejuvenescentes experiências: uma foto aqui, outra ali; foto de perfil, foto de pernas para o ar; foto a preto e branco, com degrade… Quantas fotos cabem num só rolo?

Mais um gole e num soluçar, acabou a garrafa!

Além, um casal feliz.

Mãos dadas, sorriso de orelha a orelha e olhos brilhantes: o mundo é vosso! Abraçavam o pôr-do-sol como se fosse o último momento das suas vidas! E que felizes que estavam… Ele sabia que ela gostava do silêncio, do mar, da aventura do dia-a-dia. Ele era social, resguardado na sua modéstia forma de abordar, gostava de desporto.

Saboreavam o vento, observavam o cair da noite, degustavam a plenitude do que sentiam e isso bastava! Um do outro!

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Quantos pôr-do-sol são precisos para que as borboletas degustem as mais belas paisagens de amor?

O 25!

Todos nós temos um número da sorte, aquele que achamos que nos acompanha a toda a hora mesmo nas missões mais difíceis que nos criam alento na nossa vida.

Hoje abracei o 25!

Aparentemente um número simpático, um tanto ao quanto modesto e que de há uns tempos para cá tem sido um pouco enaltecido, calçada acima, sempre no seu passo certeiro.

O 25 transforma lágrimas em sorrisos, abraços em aconchegos e olhares em amor. Gostava da companhia de meio mundo, fazia questão de enaltecer o ego quando se sentava à lareira e começava a ler o jornal de notícias. Puxava pelo seu lenço de pano, ou não fosse menosprezar modernices, e num jingle inovador, entoava uma nova melodia.

Vinho branco ou tinto? – ousava eu questionar algumas vezes… Ao que a resposta era sempre a mesma: Cheio! O 25 era do carago! Magro, esguio e de uma força interior avassaladora. Não permitia que houvesse contradições nem sermões de missa cantada. Vamos ao vinho e às batatas com a posta de bacalhau, minha gente!

Garfada aqui, copada ali e entravamos na valsa da gargalhada. Quem nunca soltou uma gargalhada no meio de uma garfada de couve, não sabe o que é ser feliz!

No prolongamento, dávamos asas à degustação do colesterol ou diabetes, qui ça: rabanadas, bolo-rei, pão doce, figos, pão-de-ló (…) uma panóplia de bolos e bolinhos que mais parecia que uma pessoa não comia durante os restantes 364 dias do ano!

Puxa rabanada para aqui, copo de vinho fino para ali e estômago em chamas!

Ás de espadas na mesa e valete à procura da sua fiel dama.

-Isso é batotice!

Sabes 25, quanta batotice fizemos nós, no meio de gargalhadas que nos tiravam o fôlego e de abraços que nos sufocavam? E as nossas danças após vitória? Ah, essas é que tinham um sabor especial! Qual tango, qual quê?

E nos after hour, no momento que o esqueleto já pedia o seu merecido descanso, ousávamos continuar a inovar ainda mais! Não é que a carpete tinha o seu quê de artigo valioso? Isso ou quando a mãe pegava no chinelo e varria a sala toda, nem nós nos escapavamos! (riso)

Quantas vezes vimos o mesmo circo, à mesma hora, no mesmo canal de televisão e na mesma carpete? Quantas vezes a expressão de entusiasmo tomou conta de nós, mesmo estando fartos de saber que o ilusionista nem nos ia conseguir iludir verdadeiramente? E o sozinho em casa, lembras 25? Esperamos tantas vezes que houvesse a versão “acompanhado em casa”.

As migas eram sempre feitas para ti, após a sessão do chinelo voador (confesso que houve alturas que pensei que a mãe andava a ver demasiado Aladdin). Engane-se quem pensa que eram umas migas iguais a todas as outras. Estas tinham um toque diferente. Porque quem as ia beber, era uma pessoa diferente!

Sabes…

Hoje é 25…

A casa está mais vazia mas os corações continuam quentes. Não mais houve sessões de OVNIs ternurentos nem batotice, no jogo da sueca. No entanto, no mesmo dia, à mesma hora, pensando na mesma pessoa, lá vem o cheiro das migas quentes invadir as narinas mais pequenas.

Sabes…

Hoje é 25!

Peanuts mode

A lufa lufa do dia a dia; o corre corre do tudo para ontem. Buzinadelas aqui, disparates ali e o trânsito infernal que começa a sucumbir pela matina!

O cheiro a café quente e o ar simpático dos muffins africanos com pepitas. Uma mistura de idiomas que se propagam de língua em língua, onde a saliva dá lugar a bolhas de sabão em plena cidade: uma loja de bijutaria à moda antiga com vizinhança agridoce. Mais além, umas barbas brancas embrulhadas num fato vermelho que balançam ao som do jingle (ou não estivéssemos em pleno mês de Dezembro). A aposta do quem dá mais e, na banca ao lado, uma mistura de cheiros e cores: amarelo, vermelho, branco. Sabem quantas cores cabem num sorriso?!

 

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Muffin a la carte!

 

Olha para aqui, olha para ali e quando me deparo com a realidade, quero puxar pelo flash!

São tantas as vezes que me questiono qual o melhor ângulo, qual o filtro ideal e o recorte a usar (um 3:2 ou um 4:3? qual aconselhariam?) – posso cortar aos pedacinhos algumas coisas mais, como se de um puzzle se tratasse?!

Para além da mistura de sentimentos na arte de disparar uns modestos flashes, quis outrora experimentar qual o sabor de umas suaves palavritas aqui, outras ali. Como alguém dizia, na ciência das frases feitas, faça “o que for preciso”!

Parei para respirar

Uma pausa a meio de um dia de pernas para o ar, onde tropecei no amanhecer e escrevo no baloiçar do pôr-do-sol… Um dia mais, onde o tempo nos abraça incansavelmente e num pestanejar, ao som alarmante do relógio, onde o compasso está bem vincado, remamos para um novo dia!

Quantas vezes não foram vezes? Quantas palavras não formaram uma frase? Quantos desejos não se tornaram realidade? Quantos fôlegos foram abafados?

 

Sabem que mais?

Isso são peanuts!