Tempos de guerra

11 de Abril: Comecei a dar nomes às coisas.

Tenho reparado que as divisões da casa mantém-se sempre inanimadas, o chão por muito que seja pisado não reage, a janela não tem autonomia para decidir quando quer ou não abrir e o candeeiro tem passado mais horas aceso do que apagado.

As portas vão dando o ar da sua graça quando o puxador é manuseado, caso contrário continuam impávidas e serenas.

O Zé está fechado. Olhei ao espelho e vejo que passeio uma doninha encima da cabeça, ora o dito cujo não fosse cortado de 15 em 15 dias!

A Maria vai abrindo o tasco de 3 em 3 horas. Diz que só o faz para os bens essenciais, como vender pão e jornais. Esqueceu-se de falar dos cafés que vejo sair nas mãos calejadas daqueles que continuam a ir para as obras.

As unhas viraram armas de guerra. Ouse o mais disparatado meter-se comigo e verá com quantas lascas sem verniz se faz uma canoa!

A base tem durado imenso tempo. Aqui consigo ver quão poupada sou. É essa e a gasolina. Agora que o preço baixou uma pessoa não pode destrocar por aí fora sem destino, como se não houvesse amanhã.

Acho que se cá estivesses não ias acreditar como isto se pôs. Está estranho. Duvidoso. Tenho pensado em ti, fazes falta. Nem que fosse para me pores a ouvir as tuas melhores cassetes de “cantares ao desafio” e rires como um perdido quando entravas pelo hall dentro a dançar e eu ia a correr acompanhar o teu passo. Não sei como agora tenho dois tijolos…

Os dias têm sido ainda mais longos.

Já pensei em 1001 estratégias de socializar com os electrodomésticos cá da casa. O Aquiles (frigorífico) é o que mais tem trabalhado. Noite e dia sem descanso, coitado. A Arménia (máquina do café) começou a cumprimentar-me todas as manhãs, antes de ligar o computador, até que tem um ar simpático. Em contrapartida, o Bartolomeu (forno) cisma que eu e ele temos que ter uma relação baseada na paz e amor. Não é que quando o ligo queima-me sempre alguma coisa?!

O padeiro ainda é o mesmo. Trouxe o pão doce, pão de ló e os “docinhos”. Desde que foste à tua vida que os bolos brancos deixaram de fazer sentido cá em casa. Ainda tentamos, mas não foi a mesma coisa.

Hoje somos reféns da nossa própria casa, avistando tudo o que lá vai janela fora.

E por aí, como está a ser feita a tua quarentena?

2 comentários em “Tempos de guerra

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